“Olhamos para o corpo e o corpo termina de repente nos pés, nas mãos. Acaba ali. Não há mais nada à frente, parece uma escarpa de um rochedo sobre o mar. De repente, termina.”
Helena Almeida
I AM HERE
“Habitar”. Entrar por uma casa adentro (ou por um corpo, ou por um som, ou por um pensamento...), misturar-me, diluir-me, camuflar-me, como se já lá estivesse estado, como se nunca de lá tivesse saído... é uma sensação que prezo e a única razão pela qual vale a pena sair do lugar. Das minhas viagens mais recentes destaco o projecto “Existência”, estreado em 2002, onde os objectos de ocupação foram os próprios corpos que se ofereciam num acto simultaneamente “suicidário” e generoso. Outros exemplos não de corpos mas de frases, sons ou pensamentos habitados, foram os casos da dramaturga Sarah Kane através do seu “4.48 Psycosis” (2001), do compositor Alvin Lucier através do seu trabalho “I am sitting in a room different from the one you are in now” (1997) ou do poeta Fernando Pessoa através de “O desejo ardente deve ser acompanhado de uma vontade firme” (1995), uma peça-homenagem que “lhe” fiz por encomenda. Em todas elas, a casa já estava pronta, as paredes pintadas e os móveis no lugar. Eu limitei-me a entrar, a sentar e a esperar.
Desta vez, a casa que me vai acolher será o imaginário de Helena Almeida, uma artista com a qual partilho o desejo de permanecer na fronteira do visível e de espreitar a realidade de esguelha (como se não fosse eu). A primeira vez que me confrontei com a sua obra foi exactamente através dos seus primeiros trabalhos “habitados” de 1976-78, onde Helena Almeida começou a trabalhar com fotografia e com a sua própria imagem. Fui depois à procura de outras pistas e à medida que avançava na investigação, confirmava a evidência da minha ligação ao seu imaginário, como se o nosso encontro fosse natural ou predestinado. Sobretudo se pensar nos trabalhos da última década como “Sem Título” (1996), “Dentro de Mim” (1998/2001), “A experiência do Lugar” (2001) ou “Seduzir” (2002), sinto que a contenção e a precisão do seu trabalho, servem-me na perfeição para fazer o percurso inverso que a sua obra me sugere: desaparecer, permanecendo.”
Março/2003
I WAS HERE
I Was Here é, como o nome indica, uma conferência informal de revisitação do solo I Am Here que, por sua vez, é um projecto de revisitação do universo da artista plástica Helena Almeida. Esta ideia de revisitar, re-habitar, viver a coisa de um outro prisma, alimenta uma das minhas obsessões em voltar, uma e outra vez, ao mesmo lugar de sempre: a este corpo que me ocupa. Como se só pudesse aceitar a realidade em que ele habita, como se essa realidade só me fizesse sentido, no embate entre o que projecto para esse lugar, mais a memória do que lá vivi e o que realmente lhe acontece.
Mas I Was Here será um pretexto para falar de outras coisas: da “escuridão”, da “sombra” (e os seus contrários) - zonas de intermináveis registos que vão desde a filosofia até à literatura passando pelas ciências cognitivas e o imaginário infantil; da importância do erro, do equívoco e do mal-entendido na criação de sentido; do método de Composição em Tempo Real que deu as coordenadas e serviu de matriz para as escolhas dramatúrgicas do espectáculo; do meu encontro com a Paula Caspão que me deu pistas fundamentais para o desenvolvimento da teoria que suporta o meu trabalho e, por fim, da colaboração com Walter Lauterer, que concebeu o magnífico dispositivo cénico de I Am Here.
Em I Am Here os acontecimentos têm lugar na penumbra, no "não-dito", no sugerido... e por isso, em grande parte, é um espectáculo que só acontece no imaginário do espectador. O lugar por excelência onde devem acontecer com as coisas sem nome, que ainda não sabemos que sabemos...
Setembro/2007